
O mergulho em apneia é uma prática muito antiga, uma vez que não necessita de qualquer equipamento básico para se submergir na água. Praticada de forma instintiva por muitos povos que vivem perto do mar, divide-se hoje tanto em lazer como em competição. Combina o autocontrolo, o conhecimento das capacidades humanas e a ligação com o meio aquático. Este texto explora a história da apneia através das suas diferentes facetas.
Definição
A apneia designa a paragem voluntária da respiração durante um determinado período, em imersão na água. No âmbito do lazer, permite observar a fauna e a flora subaquática de perto, melhor do que o snorkeling, que se limita à superfície ou a pequenas profundidades. De facto, a prática da apneia realiza-se a profundidades compreendidas entre 20 e 40 m; para além disso, trata-se de apneia desportiva.
Esta prática é frequentemente associada a atividades subaquáticas, observação, fotografia, vídeo ou até investigação científica e competição. Em termos simples, a apneia consiste em suster a respiração enquanto se executam diversas tarefas em meio aquático.
Existem vários tipos de apneia, incluindo a apneia estática (reter a respiração o máximo de tempo possível sem se mover), a apneia dinâmica (nadar debaixo de água a maior distância possível) e a apneia em peso constante (mergulhar a uma certa profundidade com uma única inspiração, sem alterar o seu peso ou utilizar equipamentos de propulsão).
As origens e a evolução
A origem da palavra apneia vem do grego pnéô, que significa respirar, precedido pelo “a” privativo que se pode traduzir por “sem respirar”.
Se nos interrogarmos sobre a origem desta atividade, parece que, desde a pré-história, os povos do mar utilizavam esta técnica para apanhar marisco.
A apneia é uma prática antiga, que remonta a milhares de anos. Os primeiros mergulhadores em apneia eram provavelmente caçadores-recoletores que mergulhavam para procurar alimento, como marisco ou peixe. Provas arqueológicas mostram que as antigas civilizações mediterrânicas, nomeadamente os Gregos e os Romanos, praticavam o mergulho em apneia. Muito mais tarde, os homens começaram a apanhar esponjas e coral para os comercializar.
Os pescadores de pérolas japoneses, as Ama, e os Bajau no Sudeste Asiático são exemplos modernos de culturas tradicionais com uma longa história de mergulho em apneia. No Japão e na Coreia, este tipo de pesca continua a ser praticado hoje em dia.
Os avanços tecnológicos e científicos
Ao longo das décadas, a apneia beneficiou também dos avanços tecnológicos e científicos que permitiram aos atletas ultrapassar ainda mais os seus limites.
Os equipamentos
Embora a apneia se baseie principalmente no treino das capacidades físicas e mentais dos mergulhadores, o equipamento de apneia desempenha também um papel crucial. Os fatos de mergulho em neoprene, por exemplo, foram aperfeiçoados para oferecer um melhor isolamento térmico, permitindo aos apneístas permanecer mais tempo em águas frias sem perder demasiado calor corporal. As máscaras de mergulho também evoluíram, tornando-se mais hidrodinâmicas e oferecendo uma visão mais clara debaixo de água.
Os computadores de mergulho
Os computadores de mergulho tornaram-se ferramentas essenciais para os apneístas. Estes dispositivos avançados podem seguir parâmetros como a profundidade, o tempo de mergulho, a frequência cardíaca e até a saturação de oxigénio. Isto permite aos apneístas monitorizar o seu desempenho em tempo real e garantir que mergulham com total segurança.
A investigação científica
A investigação científica trouxe uma compreensão mais profunda das respostas fisiológicas do corpo humano à apneia. Estudos sobre o reflexo de mergulho dos mamíferos, por exemplo, mostraram como a frequência cardíaca abranda e os vasos sanguíneos se contraem para conservar o oxigénio e proteger os órgãos vitais. Estes conhecimentos não só ajudaram os atletas a melhorar o seu desempenho, como também contribuíram para avanços na medicina de mergulho e na segurança aquática.
A preservação do ambiente
A apneia desempenha também um papel importante na sensibilização para a preservação do ambiente marinho. Muitos apneístas profissionais e amadores empenham-se ativamente em iniciativas de conservação. Participam em limpezas subaquáticas, projetos de investigação sobre ecossistemas marinhos e campanhas de sensibilização para proteger os oceanos. A ligação íntima entre os apneístas e o ambiente aquático torna-os mais conscientes da sua fragilidade.
As Competições
A invenção do escafandro no século XIX selou definitivamente a diferença entre o mergulho em apneia e o mergulho com garrafa.
Com o tempo, a apneia evoluiu de uma atividade de subsistência para um desporto e uma disciplina recreativa. Nas últimas décadas, a apneia conheceu uma popularidade crescente graças a figuras emblemáticas como Jacques Mayol e Enzo Maiorca, que atraíram a atenção para esta prática através dos seus feitos extraordinários.
A apneia foi mesmo desporto Olímpico em 1900 e não perdemos a esperança de a ver figurar novamente. Aliás, a apneísta Alice Modolo transportou, a partir de 40 m de profundidade, a chama Olímpica a 18 de junho de 2024 na baía de Villefranche-sur-mer.
Foi a AIDA, Associação Internacional para o Desenvolvimento da Apneia, que estabeleceu as bases do freediving e desenvolveu esta disciplina como um desporto reconhecido.
Mais tarde, a FFESSM reuniu as atividades subaquáticas de lazer e de competição, criando um quadro legal para as formações, os instrutores, os apneístas, as licenças e as competições.
A apneia competitiva tornou-se um desporto reconhecido com várias disciplinas oficiais e competições organizadas em todo o mundo. As principais disciplinas competitivas incluem:
Apneia Estática (STA)
Nesta disciplina, os competidores devem reter a respiração o máximo de tempo possível, permanecendo imóveis à superfície da água. É uma prova de pura resistência e de controlo mental.
Apneia Dinâmica (DYN/DNF)
Esta disciplina implica nadar debaixo de água a maior distância possível com (DYN) ou sem barbatanas (DNF). Os competidores devem combinar técnica de natação, relaxamento e economia de energia para maximizar o seu desempenho.
Speed endurance Apnea ou meio-fundo (S&E Apnea)
Na piscina, esta disciplina consiste em nadar o mais rapidamente possível um número definido de comprimentos de piscina (16 x 50 m). A recuperação entre duas apneias fica ao critério do apneísta, que gere assim o seu tempo total.
A apneia em profundidade
Um cabo vertical serve de guia para a descida e a subida. Divide-se em várias disciplinas.
Imersão Livre (FIM)
Nesta disciplina, os competidores descem e sobem utilizando apenas uma corda guia, sem barbatanas nem pesos suplementares. É uma prova que necessita de uma excelente técnica de mergulho e de gestão da flutuabilidade.
Peso Constante (CWT/CNF)
Os competidores mergulham a uma certa profundidade com (CWT) ou sem barbatanas (CNF), utilizando apenas as suas próprias forças, sem alterar o seu peso. É uma prova que testa a capacidade de descida e de subida debaixo de água com uma única inspiração.
Peso variável (VWT/VNF)
Pratica-se com barbatanas (Variable weight apnea) ou sem barbatanas (Variable weight apnea without fins). O objetivo é descer à maior profundidade com a ajuda de um lastro e depois subir pelos seus próprios meios, com as barbatanas ou pelo cabo.
Apneia No limit (NLT)
É a disciplina mais perigosa, em caso de material defeituoso, popularizada pelo filme Imensidão Azul, pois atinge profundidades extremas. Puxado para baixo por um lastro, o apneísta desce e a subida é assegurada por um paraquedas acionado pelo mergulhador ou com a ajuda de um flutuador rígido.
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Os principais recordes
Medem-se, seja em duração de apneia para a apneia estática e dinâmica, seja em profundidade para as outras disciplinas.
- Apneia estática: O recorde mundial atual para a apneia estática, com inalação prévia de oxigénio, de 24 min e 3 segundos, é detido pelo espanhol Aleix Segura Vendrell. Sem inalação de oxigénio puro, o francês Stéphane Misfud detém o recorde de 11 min e 35 segundos.
- Apneia Dinâmica: O recorde mundial para a apneia dinâmica com barbatanas (DYN) é de 300 metros, estabelecido por Mateusz Malina da Polónia em 2016. Para a apneia dinâmica sem barbatanas (DNF), o recorde é de 244 metros, também detido por Mateusz Malina.
- Peso Constante: O recorde mundial em peso constante com barbatanas (CWT) é de 130 metros, estabelecido por Alexey Molchanov da Rússia em 2019. Para o peso constante sem barbatanas (CNF), o recorde é de 102 metros, detido por William Trubridge da Nova Zelândia.
- Imersão livre: O recorde mundial de FIM é de 125 metros, detido por William Trubridge, estabelecido em 2016. Esta disciplina destaca a técnica de descida e subida sem a ajuda de barbatanas, tornando o feito ainda mais impressionante.
- Em No limit, o recorde atual de profundidade é detido pelo austríaco Herbert Nitsch com 214 m.
Os apneístas famosos contribuíram para popularizar este desporto com os seus feitos e a sua mediatização. Falamos, claro, de Jacques Mayol e de Enzo Maïorca, cuja rivalidade e amizade suscitaram o entusiasmo no filme Imensidão Azul. Guillaume Nery elevou-a ao estatuto de arte e testemunha a beleza do mundo subaquático com os seus fabulosos vídeos subaquáticos, Free Fall, Ocean Gravity e One Breath Around The World, filmados em apneia com Julie Gautier. Outros são mais tristemente famosos, como Loïc Leferme ou Natalia Molchanova, que perderam a vida durante o treino. Podemos citar também Stephen Keenan, apneísta de resgate, morto ao tentar salvar Alessia Zecchini, no famoso Dahab Blue Hole. O documentário da Netflix “The Deepest Breath” presta-lhe homenagem e recorda a importância da segurança e do acompanhamento.
Os perigos da apneia
Os perigos da apneia não se manifestam apenas nas condições extremas da competição, mas podem surgir a qualquer momento, como testemunham as mortes brutais dos apneístas mais experientes durante o treino.
Recordemos que nunca se deve mergulhar sozinho, nem no treino, nem praticar apneia a seco sozinho.
- A síncope
A síncope é a consequência da hipóxia provocada pela privação de ar. A necessidade de respirar vem do nível de CO2 que aumenta no sangue e cria contrações ao nível do diafragma. O facto de adiar este reflexo de forma voluntária, provocando a hiperventilação, aumenta este risco de perda de consciência. O sangue acidifica-se e podem surgir formigueiros, fadiga, náuseas, sinais precursores da síncope. Quando esta ocorre debaixo de água, o apneísta engole água e pode perder a vida. O perigo é máximo na subida, entre 7 e 0 m, quando o corpo economiza os seus últimos recursos de oxigénio. O primeiro órgão atingido é o cérebro. Uma vez fora de água, é o parceiro que sopra no rosto do apneísta para o lembrar de respirar.
- A ereção pulmonar ou Bloodshift
Para além dos 30 m, a caixa torácica não se pode comprimir mais, enquanto no interior ocorre uma verdadeira depressão devido ao facto de o volume dos pulmões diminuir. O vazio deixado deve ser preenchido por um afluxo de sangue. É uma forma de proteção contra as lacerações dos tecidos internos. Isto passa por uma adaptação passo a passo às grandes profundidades e deve, portanto, ser adquirido progressivamente, através do treino.
- A carpa
A prática voluntária da carpa é arriscada, pois cria um aumento do volume dos pulmões na caixa torácica e, portanto, uma sobrepressão nos pulmões.
O risco de danos nos tecidos e, portanto, de rutura ocorre quando bolhas de ar passam para o sangue:
- ao nível dos alvéolos pulmonares: risco de embolia gasosa
- entre os pulmões e o coração: o mediastino
- entre o pulmão e o seu revestimento, a pleura, dando lugar a um pneumotórax
- sob a pele, dando lugar a um enfisema subcutâneo.
A história da apneia flerta com os limites humanos, combinando técnicas ancestrais e feitos modernos. Esta disciplina continua a evoluir, ultrapassando as fronteiras do que os humanos podem realizar debaixo de água. Seja pelo desporto, pela investigação científica ou pela simples exploração das maravilhas subaquáticas, a apneia permanece uma prática profundamente enraizada na nossa história e na nossa relação com o ambiente aquático.
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